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Lastro (ou falta dele) define risco do Bitcoin?

Muito se argumenta sobre a falta de lastro do Bitcoin (BTC) como uma das principais justificativas de investidores mais tradicionais ao avaliá-lo como estratégia de alocação. Mas essa argumentação é justificável?

Nesse artigo, trilhamos desde o conceito de lastro e sua função inicial até a evolução do sistema financeiro para o modelo atual e, como consequência, a criação do ambiente ideal para o surgimento do Bitcoin e demais criptomoedas.

Gênese da moeda

No princípio criou Deus o céu e a terra.
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo;

E o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
E disse Deus: Haja luz (FIAT LUX); e houve luz.
E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.
Gênesis 1:1-4

Na passagem acima, excerto de Gênesis, capítulo 1, versículos de 1 a 4 da Bíblia moderna, é explicado o início das condições para criação da “vida” no planeta sob a ótica do Cristianismo, sendo possível que sirva, também, de referência para tratarmos da criação de um instrumento de materialização de desejos, constituição de mercados e unificação de poderes entre civilizações: a moeda.

Antes da moeda, o sistema de trocas diretas (escambo) era a forma mais viável para que o ser humano satisfizesse seus desejos ou mesmo garantisse sua sobrevivência.

Desse sistema de troca, que perdurou por vários séculos, surgem palavras como “salário” (pagamento em quantidade de sal) e “pecúnia” (derivada da palavra que significa rebanho em latim), utilizadas até hoje em diversas línguas.

As primeiras moedas surgiram na Lídia (atual Turquia) no século VII a.C., como peças em metal talhadas com golpes de um objeto pesado. O valor das moedas primitivas estava na nobreza dos metais empregados em sua cunhagem, sendo os mais valiosos a prata e o ouro.

Escassez e valor da moeda

Desde o princípio, quanto mais escasso o material de sua constituição, mais nobre e valiosa era a moeda.

De seu valor, ou melhor, de sua reserva de valor, deriva-se a necessidade de sua proteção como bem, o que configura a razão de criação das instituições de guarda.

Com a demanda de trocas entre mercadores de diferentes locais, os negociantes de ouro e prata – por terem cofres e guardas a seu serviço – passaram a aceitar a responsabilidade de cuidar das reservas de seus clientes, dando recibos escritos das quantias guardadas, que começaram a servir como meio de pagamento por serem mais seguros de portar do que moedas físicas.

Surge o papel moeda

Assim, surgiram as primeiras cédulas de “papel moeda” ao mesmo tempo em que a guarda dos valores em espécie dava origem às instituições bancárias.

Portanto, no princípio, cédulas eram certificados de guarda de uma quantidade em ouro e prata, emitidos por pessoas, famílias ou instituições de credibilidade incontestável, servindo como garantias (lastros) para transações entre terceiros.

LASTRO, substantivo masculino; qualquer matéria relativamente pesada, como pedras, metal, água etc., levada no porão de um navio ou em tanques, para manter o seu calado ou melhorar o seu equilíbrio (…); o ouro que, em um país, garante a circulação fiduciária do papel-moeda. (Michaelis, 2021)

Com o maior uso deste instrumento – inclusive como colaterais de transações financeiras – a situação se inverte e os bancos passam a ser obrigados a manter um número equilibrado entre as notas emitidas e a quantidade de bens depositados.

Nascimento dos bancos

A constituição de instituições capazes de centralizar o controle da criação de papel moeda baseada na quantidade de ouro e/ou prata sob custódia pelas casas de guarda se torna fundamental para a manutenção da sustentabilidade desse modelo.

Caso contrário, o risco de não cobertura de saques afetaria de tal forma a solidez das instituições que a credibilidade de todo este sistema financeiro entraria em julgamento e colapso.

Isso explica a relação direta entre emissão de papel moeda e a quantidade de ouro sob custódia pelos bancos centrais – o “padrão-ouro”, como o modelo de controle de liquidez mais adotado pelas principais nações do mundo entre 1815 e 1914 era conhecido.

Das grandes guerras à moeda fiduciária

Porém, com a necessidade de financiamento de Grandes Guerras e as consequentes reconstruções de países inteiros, as travas na emissão de moeda começaram a ser um peso extra na necessidade de injeção massiva de liquidez na economia mundial, fazendo com que a paridade-ouro perdesse espaço a cada novo acordo econômico entre nações. Em 1971, Richard Nixon, então presidente dos EUA, decide abolir de vez a relação dólar-ouro.

Desde então, os bancos centrais emitem moeda fiduciária (fiat money, em inglês, não à toa derivado do fiat lux do início do artigo) de maneira contínua, ilimitada e infinita. Ou seja, há mais de quarenta anos os bancos centrais emitem moeda sem lastro em metal ou valor intrínseco, cujo valor é atribuído pelos governos e aceito como verdade pelos agentes econômicos, incluindo suas populações.

Fidúcia da moeda

Portanto, moeda fiduciária é todo e qualquer documento (ou pedaço de papel) que seja aceito como método de pagamento, e seu valor depende da confiança que a sociedade deposita na instituição que a emitiu.

Estima-se que, atualmente, 97% do dinheiro em circulação no mundo não possua qualquer lastro com ativos físicos (metálicos ou não). E, a cada novo quantitative easing ou plano de recuperação econômica, trilhões de novas unidades de moeda fiduciária são injetadas na economia mundial, aumentando ainda mais essa margem.

Um fato importante: quanto mais pessoas atribuem valor à moeda e a aceitam como meio de pagamento, mais forte essa moeda se torna.

E o Bitcoin?

Voltando a análise ao Bitcoin, as características que tornam uma criptomoeda desejada e diferenciada são sua escassez, autocustódia e realização de transações seguras.

Diferente de moedas emitidas por banco centrais, o Bitcoin tem em sua escassez um grande diferencial (é descrito no White Paper lançado por Satoshi Nakamoto em 2008 que sua criação é finita e conhecida, além de ter sua taxa de emissão reduzida pela metade a cada quatro anos – o halving), inclusive em relação ao ouro. Ainda que escasso, o aumento significativo nos preços do metal faz com que minas antes economicamente inviáveis se tornem lucrativas o suficiente para a exploração.

Assim, a sustentação do preço do BTC varia única e exclusivamente de acordo com a demanda entre compradores e vendedores.

A mineração como pseudo-lastro do bitcoin

Alguns especialistas afirmam que o lastro do Bitcoin tem correlação direta com o custo médio de sua mineração, processo de validação de blocos que exige muito esforço computacional e, consequentemente, alto gasto de energia elétrica.

Porém, independentemente da validade desta teoria sobre o custo do Bitcoin, ela não serve como definição de seu lastro, já que não há qualquer taxa que gere a conversibilidade de BTC por determinada quantidade de eletricidade – como havia no antigo padrão entre dólar e ouro. Portanto, sim: o Bitcoin, como o dólar e tantos outros ativos relevantes, não possui qualquer lastro em ativos físicos.

Oferta e demanda ditam o preço

Sendo assim, o que define seu preço é sua crescente credibilidade a partir da maior utilização. Principalmente entre grandes investidores institucionais como estratégia de proteção contra a desvalorização econômica causada, exatamente, pela injeção massiva de dólar nos mercados.

Seu risco, portanto, se afasta das questões estruturais quanto maior se torna sua adoção e confiança na segurança de sua plataforma Blockchain.

Por outro lado, por ser um produto de renda variável, sua grande volatilidade de curto prazo – seja por sua alta sensibilidade a fatos e notícias de mercado, seja por correções e entrega de lucros extraordinários em estreitos períodos de tempo – pode ser considerada como um grande desafio aos investidores, principalmente aos “curtoprazistas” ou perfis avessos ao risco.

Filipe Pires é pesquisador e chefe de análise econômica do Alter, o primeiro cryptobank do Brasil. Abra já sua conta: a sua experiência cripto começa aqui.

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