Nesse artigo, listamos três eventos econômicos de 2020 com real possibilidade de impactar os primeiros momentos do investidor em 2021.

Mais do que isso: relacionamos os eventos, para que o cenário fique bem claro ao ajudá-lo na construção/revisão de sua estratégia de alocação.

2020 foi um ano fora da curva, já sabemos. Que testou os nervos até dos investidores mais resilientes, é fato. Continue a leitura para entender o que aconteceu e como isso pode te impactar.

Três eventos econômicos de 2020 que continuarão a impactar os mercados em 2021

1º evento: Maior endividamento dos governos

Diante da necessidade de mitigar os efeitos da pior crise econômica desde 1929, e do aumento do déficit estrutural das economias com a menor arrecadação, a recuperação dos mercados se tornou mais dependente da força dos Bancos Centrais em assumir as dívidas de seus governos.

O relatório de monitoramento fiscal do Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta que as despesas fiscais causadas pela pandemia, juntamente com todas as medidas de estímulo econômico suplementares já em andamento, deve empurrar a dívida pública mundial total para um nível recorde de 100% do PIB, contra 83% em 2019.

E como não há ainda qualquer indicação de que os estímulos acabarão em breve (um novo pacote de US$ 900 bilhões acaba de ser aprovado e sancionado pelo governo americano para manutenção do auxílio emergencial à população mais vulnerável), o próprio FMI acrescenta que essa proporção se manterá até pelo menos 2025.

A tabela abaixo apresenta o crescimento da dívida pública das principais economias cuja expectativa relação dívida pública/PIB já se encontre ou venha romper a barreira de 100% em 2020. 

Percentual                Dívida Pública / PIB 2017 (%) 2018 (%) 2019 (%) 2020E (%) Variação 2020/2019 (p.p.)
Japão 234,46 236,57 237,96 266,18 28,22
Itália 134,15 134,81 134,80 161,85 27,05
EUA 105,75 106,89 108,68 131,18 22,50
Espanha 98,56 97,60 95,47 123,04 27,57
França 98,32 98,06 98,12 118,74 20,62
Canadá 90,55 89,75 88,62 114,65 26,03
Reino Unido 86,25 85,72 85,35 108,03 22,67
Brasil 83,66 87,07 89,47 101,40 11,93
Fonte: FMI, World Economic Outlook Database

O primeiro dos eventos econômicos de 2020, que diz respeito ao aumento acelerado do endividamento, provocou dois efeitos colaterais na economia mundial: maior injeção de liquidez e redução dos juros globais. 

2º evento: Maior injeção de liquidez nos mercados

Esse é um dos eventos econômicos relevantes de 2020 que fez com que as principais bolsas do mundo se mantivessem em tendência de alta, rompendo máximas históricas, mesmo possuindo um efeito colateral devastador da pandemia aos seus mercados

Dados da plataforma Bloomberg apontam US$ 14 trilhões injetados na economia mundial somente em 2020, somando os saldos previstos pelos orçamentos aos planos de auxílio emergencial nos EUA, China, Zona do Euro, Japão e mais oito economias desenvolvidas.

Como grande parte desse volume é nominado em dólar, é de se esperar sua desvalorização perante outras moedas.

 Observando a evolução do Índice DXY em 2020 (gráfico abaixo) é possível identificar que, apesar de alguns momentos de reversão da tendência de queda – como em março (início da pandemia) e novembro (eleições americanas) – é evidente a pouca força do dólar comparado a moedas como euro, iene, libra esterlina, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço ao longo dos últimos 12 meses.

3º evento: Manutenção dos juros globais historicamente baixos

Bancos Centrais são fundamentais para imprimir o dinheiro que os governos precisam injetar diretamente nos mercados, e fazem isso através da compra de títulos públicos e outros ativos, atualmente, em uma escala nunca antes vista.

O Fed (Banco Central dos EUA) sozinho está injetando pelo menos US$ 120 bilhões por mês nos mercados financeiros por meio de suas compras de ativos de renda fixa.

O caso não está no maior apetite, mas na remuneração aceita pelos Bancos Centrais para manterem suas posições. 

Atualmente, os juros pagos por dívida de países com grau de investimento em todo o mundo são, em média, inferiores a 1% ao ano, enquanto o montante da dívida com rendimentos abaixo de zero (portanto, remuneração negativa) atingiu US$ 18 trilhões em 2020.

E não há qualquer indicação de mudanças de rumo no curto prazo.

O convite do presidente americano eleito, Joe Biden, à Janett Yellen para conduzir o Departamento do Tesouro é um sinal de que o discurso mais brando em relação ao afrouxamento monetário (ou dovish, em inglês) se manterá pelos próximos anos.

Por que isso é relevante para 2021?

O racional é que, diante de maior incerteza dos mercados, investidores busquem por proteção.

Títulos do Tesouro, ativos metálicos (ouro e prata) e moeda forte são as principais opções nesses momentos.

Porém, com o resultado das eleições americanas e o cenário de vacinação em massa já precificados, componentes de risco iminentes podem ter ficado para trás nestes primeiros meses.

Portanto, desde que a eficácia dos planos de vacinação e recuperação dos mercados nesse período não surpreenda, há maior probabilidade do dólar perder força.

 E, com a remuneração real (descontada inflação) dos títulos da dívida pública beirando a zero em grande parte da economia mundial (incluindo em terras brasilis), o cenário aponta para: 

(i)            maior entrada de capital estrangeiro nas bolsas de países emergentes; 

(ii)      maior de alocação em ativos de alta volatilidade, como Bitcoin e altcoins com maior liquidez e upside

Tais indicações corroboram os dois rompimentos importantes já no apagar das luzes de 2020: Ibovespa (principal índice da bolsa brasileira) alcançou pela primeira os 120.000 pontos, enquanto o Bitcoin avançou sobre US$ 29.000 e não para de subir.

Importante lembrar que, mesmo em cenários favoráveis, se tratando de renda variável, os fundamentos são como sinalização em uma estrada e não um piloto automático.

É você que decide o quanto acelerar, até enxergar a próxima curva.

Filipe Pires, engenheiro e mestre em economia, é gestor e advisor de modelos de negócio em tecnologia e consultor com mais de dez anos de atuação em valuation, M&A e gestão financeira. Nunca conseguiu deixar a sala de aula, atuando como coordenador e docente em cursos de finanças de grandes escolas de negócios pelo país.

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