Categorias:

Volatilidade do Bitcoin: uma análise sobre o risco/retorno do BTC

A entrada de grandes investidores institucionais no mercado cripto ao longo de 2020 e primeiro trimestre de 2021 é um dos fatores mais relevantes para o cenário de sustentação da valorização do Bitcoin (BTC) até o momento.

Porém, a intensa variação no preço do ativo parece ainda ser barreira para grande maioria dos perfis de aversão a risco dos investidores. Será mesmo? Confira no artigo as principais variáveis que devem ser analisadas por investidores de bitcoin.

O poder da informação

O primeiro ponto é sobre o poder da informação no comportamento do ativo. A tabela 1 relaciona fatos relevantes do mercado cripto, datas de divulgação e seus impactos na remuneração de BTC.

Tabela 1 – Fatos relevantes e impactos na rentabilidade diária do Bitcoin – últimos 15 meses

Fica claro que somente uma série de acontecimentos em sequência (e não um fato isolado) seria capaz de sustentar o cenário de tendência altista no médio e longo prazo. E é isso o que o mercado vem acompanhando atualmente.

Os anúncios das primeiras aquisições de Bitcoin para os portfólios de grandes empresas e de fundos gigantes geram mais segurança ao investidor não institucional sobre a estrutura e perenidade do criptoativo.

Além disso, informações sobre a evolução do mercado futuro de BTC, bem como sobre a implantação de produtos e setores exclusivos para transações em cripto por instituições bancárias tradicionais, as quais só vinham a público para denegrir o ativo, é mais um indicador de maior robustez e credibilidade desse mercado. E o resultado pode estar na manutenção do fluxo de entrada de novos players por mais tempo, provocando mais volatilidade pelo aumento no fluxo de investidores meramente especuladores.     

Risco no portfólio

Outro ponto é entendermos mais sobre o benefício da análise de risco no portfólio.

De forma simplificada, risco em finanças pode ser considerado como a probabilidade daquilo que se espera não acontecer. Então, se há expectativa sobre preços futuros de BTC, há um percentual provável desse cenário ideal não ocorrer durante o horizonte de tempo previsto.

Para medir e comparar as variações de preço (e a remuneração) entre ativos, utiliza-se a medida de dispersão estatística chamada Desvio Padrão (DP). Esse nada mais é do que o somatório das distâncias (na verdade, a raiz quadrada dos somatórios ao quadrado) entre os preços do ativo e a sua média em um determinado momento.

Em resumo, a menor volatilidade de um ativo exprime a variação menor do seu preço ao redor da média, tornando sua remuneração mais previsível (e menos arriscada).

Pela lógica, quanto maior a volatilidade na remuneração de um ativo, maior é o prêmio exigido pelo mercado para realizar ou manter tal investimento. Daí a importância de, ao analisar o histórico de cotação, comparar a relação risco/retorno entre investimentos, e desses com índices de referência como Ibovespa (para prêmio de mercado) e taxa Selic (para remuneração do ativo livre de risco).

Risco e retorno

O terceiro ponto para entendermos a volatilidade do Bitcoin se refere a estimar a relação risco/retorno desse nos últimos doze meses (março/2020 a março/2021) e sua comparação com o custo oportunidade de outros ativos como ouro (spot), câmbio (dólar/real), título público norte-americano (T-Note 10 anos), além dos índices S&P500 e Ibovespa, a partir de suas cotações diárias em dólar.

O modelo para avaliação do comportamento da volatilidade dos ativos inicia com a análise do percentual de dias dos últimos quatrocentos pregões cujas variações no preço do ativo em relação ao dia anterior tenham sido superiores a 2,5% e 5,0%, e inferiores a -2,5% e -5,0%.

A tabela 2 abaixo apresenta o estudo, com destaque para a performance dos retornos de Bitcoin e de Ibovespa em dólar.

Tabela 2 – Percentual de variações diárias acima de 2,5% e 5,0% e abaixo de -2,5% e -5,0% na remuneração dos ativos – período jan/20 a mar/21

É possível observar que, comparando os ativos, o Bitcoin possui quantidade superior de pregões com remuneração nos percentuais analisados.

Outro ponto é que o número de dias em que a rentabilidade diária de BTC foi acima de 5% em relação à cotação do dia anterior é, aproximadamente, 50% maior do que os dias em que a rentabilidade foi inferior a -5% nesse período.

Isso demonstra que, mesmo o fato de 7% desse período tenha observado retornos negativos com perdas acima de 5% no valor de BTC, mais de 10% de dias no período apresentou variação positiva capaz de recuperar as possíveis perdas do investidor.

Importante destacar que uma carteira replicando o Ibovespa em dólar, nesse caso, teria maior número de dias com perdas acima de 5% do que retornos positivos extraordinários acima deste percentual, o que demonstra a maior resiliência de BTC nos investimentos de médio e longo prazos em comparação ao Ibovespa dolarizado.

Correlações com o Bitcoin

Outra análise importante é sobre o comportamento da correlação dos retornos diários dos ativos em relação aos retornos de BTC nos últimos doze meses.

De maneira simples, a correlação entre os retornos de dois ativos mede o quanto o comportamento de um pode ser explicado pelo do outro. Portanto, quando há correlação positiva em 1, dada a variação de 1% no retorno de um ativo, o do outro cresceria em igual proporção. Sendo esta negativa, os comportamentos se invertem, e se um cresce o outro tem queda no retorno na proporção da correlação. Já para ativos com correlação próximo a zero, não há qualquer afinidade no comportamento entre seus retornos.

Quanto maior a correlação positiva entre os retornos de dois ativos, mais exposto são esses em relação aos mesmos riscos. Portanto, menos diversificado será o portfólio baseado em ativos com alta correlação positiva entre si. 

O gráfico 1 abaixo apresenta a correlação negativa de BTC com título do tesouro americano de 10 anos (T-Note 10 anos) e com Ibovespa em dólar. Por outro lado, BTC demonstrou correlação mais forte e positiva com S&P500, índice composto pelas quinhentas ações de maior liquidez na bolsa norte-americana. Já quando comparado aos retornos do ouro spot e do câmbio, a correlação com Bitcoin está próxima a zero no período.

Gráfico 1 – Correlação entre retornos diários em dólar de BTC e demais ativos (12 meses)

A principal leitura sobre esse resultado corrobora com análises que destacam o potencial de BTC em proteger os investidores contra a inflação em dólar, fruto de injeções massivas de liquidez na economia por meio dos principais bancos centrais.

Além disso, o fato de possuir zero correlação com a variação do real em relação ao dólar também o coloca como excelente alternativa de proteção cambial às carteiras mais expostas ao real, principalmente em cenários de grande desvalorização de nossa moeda como o que vem ocorrendo.

Sobre a correlação negativa com a taxa de juros do Tesouro norte-americano, uma justificativa seria o aumento de aversão ao risco por parte do investidor quando há alternativa de ganho real nos investimentos de menor risco, como nos títulos públicos.

Portanto, há que se observar o aumento dos juros futuros dos treasuries como resultado de expectativa de inflação pelo mercado, sendo este um possível gerador de correções de curto prazo numa possível tendência altista do Bitcoin no futuro próximo.

Comparativo volatilidade Bitcoin e outros ativos 

A parte final da análise é dedicada ao estudo do desvio padrão (volatilidade) dos retornos diários dos ativos em períodos de 30 dias (mensal), durante 12 meses. A tabela 3 abaixo apresenta as variações mês a mês, o retorno acumulado e o desvio padrão para o período anual de cada ativo.

Tabela 3 – Desvio Padrão dos retornos diários de 30 dias dos ativos, retorno acumulado e desvio padrão anuais

Ibovespa

Fica explícita a maior volatilidade mensal de BTC e Ibovespa dolarizada em relação aos demais ativos, o que demonstra o quanto a bolsa brasileira vem sofrendo aos olhos do investidor estrangeiro, seja pela desvalorização do real, retorno expressivo da crise sanitária no país e indefinições nas reformas que poderiam destravar parte da economia real doméstica.

Porém, ao analisar os dados anualizados, é mais clara a posição de maior volatilidade do índice Ibovespa em dólar (3,66%), mesmo em relação à variação dos retornos diários do Bitcoin (3,52%) no período.

S&P 500

Tanto o índice S&P500 quanto a variação do preço do ouro tiveram seus desvios padrão aferidos em escala três vezes menor quando comparados aos dos ativos mais voláteis citados, porém suas remunerações também não alcançaram posição de destaque.

Em tratando-se de retorno acumulado, BTC entregou, no mínimo, quatro vezes mais que todos os demais ativos em análise, batendo +200% no período, enquanto os índices de bolsa (S&P500 e Ibovespa em dólar) não entregaram 50% de remuneração, justificada pela incerteza nos mercados causada, principalmente, pela manutenção prolongada do cenário de pandemia.

Ouro

O ouro em dólar, apesar de toda estabilidade em relação à variação extraordinária de preços no período, rendeu somente 6,3% nos últimos 12 meses, deixando para o título público do Tesouro norte-americano a última posição desse ranking. O T-Note 10 anos obteve rentabilidade negativa de, aproximadamente, 4% no acumulado do ano.

Índice de Sharpe

Para análise da relação risco/retorno, é utilizado o Índice Sharpe, indicador de performance que apresenta o prêmio ao risco do ativo – ao descontar seu retorno da remuneração do ativo livre de risco – por unidade de risco, ao dividir esse resultado por seu desvio padrão.

Tendo como ativo livre de risco o próprio T-Note 10 anos (título de renda fixa emitido pelo Tesouro dos EUA), a ideia do Índice Sharpe é calcular a relação risco/retorno de ativos e portfólios a partir de uma mesma referência baseada na remuneração de ativo que, teoricamente, não possui volatilidade. Assim, a título de interpretação, quanto maior o Índice Sharpe, melhor é a relação risco/retorno de um produto de investimento.

E nenhum outro ativo obteve melhor resultado nesse indicador comparado ao Bitcoin, apresentando Índice Sharpe, no mínimo, duas vezes maior que o S&P500, segundo colocado no ranking de investimento com melhor risco/retorno entre os ativos analisados.

Concluindo…

Sendo assim, apesar de variação dos retornos diários do Bitcoin ter superado (e muito) os dois índices de renda variável, S&P500 e Ibovespa em dólar, a cotação do ouro spot, o câmbio e o título do Tesouro norte-americano (T-Note 10 anos), pela análise de risco/retorno do Índice Sharpe, sua remuneração acumulada nos últimos 12 meses compensou tal volatilidade, entregando retornos extraordinários no período.

É importante salientar que a análise aqui produzida, seja sobre a periodicidade dos fatos relevantes que impactam no preço de BTC, seja a partir da modelagem dos retornos diários dos ativos estudados, foram realizadas tendo como referência exclusiva seus dados históricos.

E como, independente do ativo, nenhuma remuneração passada garante retornos futuros, o importante é se expor de forma mais adequada ao risco, evitando alocar mais que 5% a 10% de sua carteira em ativos com maior volatilidade, independente do retorno já entregue um dia.

Isso vai garantir que, caso o cenário se perpetue, os ganhos possam contribuir de forma relevante com a performance de seu portfólio geral. Mas caso haja perdas, que o impacto não comprometa em definitivo o resultado de seus investimentos e a manutenção do seu bem-estar.

Stay safe.

Filipe Pires é pesquisador e chefe de análise econômica do Alter, o primeiro cryptobank do Brasil.